O poder do ‘Fora Cabral, vá com Paes!’

Texto escrito por Lucas Hippolito von der Weid (versão completa para um texto originalmente publicado no blog Capitalismo em Desencanto em versão editada)


Quando estouraram as manifestações desteano, o Rio de Janeiro sonhava. Não o dito sono de um gigante adormecido, mas o do almirante de uma nave adernada, sonhando com o alto mar, o sonho nostálgico de uma bela capital de outrora, que não queria acordar para seu presente distópico, e que via nos governos de então sua nova saída, seu novo norte.

Mas, seguindo a maré das manifestações, o Rio de Janeiro que acordou não foi o almirante, e sim sua tripulação, despertando do sonho idealizado que a deixara parada, letárgica, mais letárgica do que qualquer outro membro do ufanista gigante. Acordava o Rio de Janeiro para sua dura realidade: afastado do poder central há décadas, com graves tensões sociais, em crise de identidade, tendo uma alternância de governos medíocres, mas esmerados em seu assalto ao Estado, não havia saída. Caía a máscara da maquiagem, centrada na política de pacificação e dos grandes eventos, e a onda que varreu as ruas do Rio – e que ainda reverbera, com muitas expectativas para o ano vindouro – se tornou a maior e mais duradoura do país, desdobrando-se ainda na forte greve de professores, inspirando movimentos em outras regiões. Abalava o almirantado, na verdade um conjunto de verdadeiros ‘encostos’ que domina nosso leme há décadas, heranças de um passado de ditaduras e mais: a rede de alianças de interesses políticos e econômicos que ora se manifestam no PMDB, na Rede Globo e na Polícia Militar.

Ato do dia 20 de junho – Av. Presidente Vargas

No início deste ano, cariocas acompanharam distantes os atos iniciados em Porto Alegre e potencializados em São Paulo contra o aumento das passagens. Afora poucos movimentos de contestação às políticas dos governos Cabral e Paes, centrados nos efeitos das obras na cidade, em especial no entorno do Maracanã, não havia no Rio de Janeiro sinal da magnitude dos atos e greves que ocorreriam. Insatisfação havia, sempre há, mas reinava uma espécie de resignação, que se podia supor pelos altos índices de aprovação dos governos; ademais, o senso comum festejava que as três esferas de poder estavam finalmente alinhadas, finalmente se combatia o tráfico, ganhando a Polícia Militar uma simpatia que não gozava, os grandes eventos, já antecipados em imagens da Rede Globo, afagavam o ego da cidade. A resistência dos poucos, em especial na defesa da escola Friedenreich e da Aldeia Maracanã contra as ambições dos governos, até que ecoava algum apoio, mas sem grandes consequências, e essas duas, a escola e a aldeia, já se configuravam como novas derrotas. Como explicar a discrepância? Como explicar que as aprovações despencaram? Como explicar a morte política de Sérgio Cabral (pelo menos nos próximos anos)?

Não há determinação última no decorrer da História, os acontecimentos podem ou não ocorrer, podem seguir rumos os mais diversos. Porém, os acontecimentos não são vazios de significados e não ocorrem de forma puramente espontânea; se ocorreram é porque puderam ocorrer, havia um potencial acumulado, e, em decorrência de seu acontecer, são lidos e relidos pelos seus sujeitos e sujeitados, que podem ou não entender o que está acontecendo, mas não vão para as ruas como tábulas rasas, têm seus motivos, sejam questões materiais imediatas, sejam profundos instintos ou ideias mais desenvolvidas, e essa costura do presente, as tramas desse acontecido, são feitas dessas questões, instintos e ideias, e não quaisquer outras. O passado não determina o futuro, mas o futuro não é estranho ao passado, muito pelo contrário, e na história recente do Rio de Janeiro podemos encontrar as raízes dessa trama, de onde vem o poder do ‘Fora Cabral, vá com Paes!’, estampado nos adesivos espalhados pela cidade.

Por que os protestos no Rio ganharam tamanha magnitude? Como explicar a súbita morte política de Sérgio Cabral? Talvez se possa estranhar essa questão, afinal protestos no Rio sempre ocorreram, o Rio sempre foi o centro, é referência para o país, capital cultural etc. Só que não é assim. Já há muito tempo…

Quando a capital federal deixou o Rio, em 1960, a cidade ainda era o centro político e cultural do país, simplesmente por inércia – até então, políticos e intelectuais de todas as regiões estavam no circuito do Rio, muitos deles se tornando políticos e intelectuais ‘cariocas’, das mais variadas vertentes políticas e ideológicas. São Paulo só recentemente suplantara o Rio em população e, politicamente, desde 1930, os paulistas ainda não tinham recuperado sua posição, o que não era compatível com o avanço de seu poder econômico. Nutriu-se por um tempo a imagem da cidade-estado para a recém-criada Guanabara (um estado provavelmente inviável em termos estruturais, mas isso é outro debate), ficando a imagem de uma idade de ouro, que vira e mexe é relembrada. A cidade cosmopolita, que teve jornais com nomes tais como Jornal do Brasil, O Globo, O Paíz, ainda brilhava no cenário, em contraste com as demais capitais provincianas do Brasil, e seus jornais Folhas e Estados quais.

Aterro do Flamengo, um dos símbolos do Estado da Guanabara, inaugurado por Lacerda

Com o golpe de 1964 e instauração da ditadura (que teve na recém-inaugurada Brasília uma capital convenientemente afastada dos centros políticos e culturais do país), o Rio não foi imediatamente abandonado, pelo contrário, dentre os articuladores do golpe havia a participação direta de grupos políticos e econômicos cariocas, além dos militares terem uma vinculação muito forte com o Rio (pela presença de suas escolas superiores, sede da esquadra e de inúmeras divisões etc.). Mas, por consequência do golpe, e da reação de setores da sociedade à ditadura, uma considerável parcela de instituições e lideranças foi perseguida ou simplesmente eliminada. Seja imediatamente depois do golpe, seja ao longo dos mais de vinte anos da ditadura, além de muitas lideranças e grupos políticos, grandes jornais da cidade vão sumindo da História, mesmo aqueles que tinham apoiado o golpe, como o Correio da Manhã, um dos maiores do período. Não se pode dizer que o Rio tenha sofrido mais da perseguição política do que outras regiões, mas tendo deixado de ser a capital, foi cessando a atração que fazia atores políticos ou culturais orbitarem a cidade, havendo um impacto maior, um ‘empobrecimento político e cultural’. Seja pela eliminação de quadros experientes ou diversificados ideologicamente na dita ‘classe política’, e seu caráter cada vez mais provinciano; seja pelo impacto na organização dos movimentos políticos e sociais (que continuaram com força no Rio, em especial no fim da ditadura, como a greve dos professores em 1979, e na década de 1980, mas que já não tinham o papel de liderança a nível nacional – haja vista a formação do PT e sua centralidade em São Paulo). Seja na própria imprensa, que passou por um processo muito significativo de redução, deixando a grande variedade de grandes veículos (mesmo que identificados ideologicamente em diversos aspectos) pela hegemonia quase total de um único grande grupo, a Rede Globo, uma vez que a Rede Manchete e o Jornal do Brasil também fecharam. A concentração da mídia também ocorreu em outros locais, mas no Rio o resultado foi mais radical; diferente de São Paulo e de grandes cidades do mundo, a antiga capital do Brasil agora tem apenas uma grande rede como referência política.

Chagas Freitas, banhando-se no Paraíba do Sul para atestar a boa qualidade da água

Todos esses processos estão ligados, evidentemente, à relação do Rio com a ditadura, que foi ambígua e nos restou desastrosa. Por um lado, o estado da Guanabara logo mandou mensagens de que seria um foco de resistência; foi o único que elegeu um governador da aliança PSD/PTB, de oposição, nas eleições de 1965. Com a redução dos partidos, em 1966, o MDB (partido criado pela ditadura para ser minoritário e manter a máscara de democracia) da Guanabara e do Estado do Rio ficaram fortes devido às forças articuladas por Getúlio décadas antes nos dois estados (o próprio Vargas, no Rio, e Roberto Silveira e Amaral Peixoto no Estado do Rio). No entanto, pela própria pressão da ditadura, ocorreu uma ‘limpeza’ ideológica no MDB – o partido conseguiu se manter no governo da Guanabara e depois do unificado estado do Rio de Janeiro por quase todo o período, mas à custa de afastar setores mais críticos à ditadura ou ligados a grupos mais radicais, tornados clandestinos. A política empobreceu em quadros e por perder seu caráter nacional; emergiu a figura de Chagas Freitas, governador e liderança do MDB (dono do jornal O dia, que depois venderia, e que também perderia importância), e com ele a política chamada chaguismo, o tecido de uma rede de apoios com lideranças locais, focada em questões locais, em troca de favores, em diálogo com o grande poder econômico, mas também tendo laços com a contravenção, jogo do bicho, escolas de samba… E, agora, milícias…

Charge de 1975, data da fusão dos dois estados. Vale a pena ler a crônica de Carlos Eduardo Novaes, ilustrada por esta charge, em http://memoria.bn.br/DocReader/cache/479705628473/I0119579-02PX=000000PY=000000.JPG

A ditadura teve que conviver com o MDB no Rio, mas nada impediu os governos militares de imporem sua condição: a fusão dos dois estados, e consequente perda de poder no congresso, ou seja, sua presença a nível nacional. Além disso, feita de cima pra baixo, sem consultas à população, a fusão das duas estruturas públicas foi tensa, e relegou muitos problemas, tendo o atual estado do Rio de Janeiro, cuja capital antes sempre gozara das verbas federais e dispusera de considerável estrutura de poder público (especialmente depois dos primeiros governos da Guanabara), se tornado exemplo de precariedade em seus serviços públicos.

Roberto Marinho de braços dados com o general Figueiredo, último ‘presidente’ da ditadura

Mas isso não significou um abandono do Rio pelo poder central, e aí vem o outro lado da moeda. Nas bases ideológicas e no projeto político da ditadura, o Rio cumpriu um papel importante; na exaltação da nacionalidade, na busca da integração e centralização do Brasil, a imagem do ‘país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza’ era a imagem do Rio, mostrada pela recém-instaurada rede de Televisão carioca, mas a nível nacional, a Rede Globo, enaltecendo a própria ditadura. Assim como o rádio e a ‘voz do Brasil’ na Era Vargas, agora a integração era projetada em imagens pelo ‘Jornal Nacional’ da Rede Globo. O carnaval do Rio era a cara do Brasil, a cidade que tinha o maior estádio do mundo, a maior ponte, verdadeira conquista da engenharia nacional, o time do Flamengo, com a maior torcida do Brasil… Todo brasileiro, gostando ou não, tinha referências do Rio – e os cariocas, por sua vez, não desenvolveram uma identidade regional, mantendo como identidade tanto a local quanto a nacional, que estavam sendo confundidas.

Nessa imagem, é claro, também figurava a defesa da repressão aos subversivos, da necessidade do controle social, ofuscando as críticas à ditadura, em especial nos seus momentos finais, com a tentativa de abafar as manifestações pelas Diretas Já, que já levavam um milhão às ruas de São Paulo. A Globo foi tamanho sustentáculo da ditadura, alimentando-se de verbas e devolvendo em propaganda, e espalhou de tal forma seus tentáculos políticos e econômicos com suas retransmissoras por todos os estados, que qualquer tentativa de reconhecimento de erro em apoio ao golpe é, por si só, a mais pura hipocrisia e afronta.

 

Crise dos anos 1980: Revolta de desempregados, iniciada em SP, em abril de 1983, se espalha para o Rio, onde ocorre uma grande onda de saques a supermercados, em setembro deste mesmo ano.

Com o fim da ditadura, duas décadas depois de deixar de ser a capital, o Rio de Janeiro já começava a padecer de problemas decorrentes do vácuo de poder político e econômico; como resultado das políticas de desenvolvimento da ditadura, São Paulo se estabeleceu definitivamente como centro econômico, mais industrializado e dinâmico, mas tanto a capital paulista quanto a fluminense sofreram com o processo de inchamento urbano. As tensões sociais se acirraram com a crise dos anos 1980, o estado não dá conta de garantir uma estrutura mínima para grande parte da população, e grandes regiões da antiga capital foram sendo literalmente esquecidas pelo poder público, abrindo espaço para o crescimento das quadrilhas, do tráfico ou demais formas de contravenção. Talvez pela topografia da cidade, permitindo bairros nobres de serem cercados de favelas, mas também muito em função da incapacidade do estado de garantir políticas mínimas de inclusão social, a cidade maravilhosa, a partir dos anos 80 e 90, se tornou sinônimo de cidade violenta e de crise social. A Polícia Militar, nesse cenário, prosseguiu, como sempre, em seu papel de conter a tensão social, tendo na Rede Globo um parceiro na legitimação e no próprio clamor pela violência.

Ao nível político, o Rio também deixou o centro do plano nacional, tanto pela sua política interna ter se tornado provinciana, quanto pelo fato do eixo político nacional ter se firmado,

Anos 1990 – a “cidade partida” – arrastões durante o segundo governo Brizola.

por fim, em São Paulo. Ao longo das três últimas décadas, a política brasileira se configurou em uma polarização entre PT e PSDB, ambos, partidos com projetos nacionais, e ambos tendo fortes pesos em suas bases paulistas. Curiosamente, porém, esses dois partidos ficaram muito fracos no Rio de Janeiro. Nos últimos anos, pelo contrário, ocorreu um processo de consolidação do PMDB no estado do Rio, com amplo domínio do interior e, finalmente, na própria capital; e não é surpresa ver no PMDB (o que restou do velho MDB) um partido sem projeto nacional, uma federação de oligarquias provincianas. Também não é surpresa entender que essa consolidação no Rio, a bem da verdade, começou com o próprio MDB e o chaguismo; mesmo sendo criticado pelos governos seguintes, todos, inclusive Brizola, mantiveram muitas das práticas dessa política pequena, fisiológica, em contato mais ou menos próximo de setores à margem da lei, como agora ocorre com as milícias. Os partidos se revezaram na política carioca e fluminense, mas o chaguismo de certo modo prevaleceu, agora retornando ao seu partido de origem. Junto a ele, porém, vingou uma profunda descrença com a política estadual, a certeza da corrupção, da precariedade dos serviços públicos e uma sensação de falta de qualquer opção razoável para as eleições. Aliás, fraco nos dois partidos que polarizaram a política nacional, o Rio de Janeiro acabou dando força para candidaturas presidenciais que pretenderam romper com a dualidade PT x PSDB – Garotinho, Heloisa Helena e Marina Silva tiveram votações expressivas no Rio. Isso, por si só, já sugere um afastamento da política fluminense do plano nacional, ou simplesmente uma demonstração de insatisfação.

Eleições presidenciais – o Rio em contraste com o Brasil (Fonte TSE e TRE/RJ)

Aliança das três esferas de poder

Mas o Rio, novamente, não se descolou de todo da política nacional, ainda que sua atual relação não esteja no nível da Política, mas sim da barganha. Ao passo que Cabral foi eleito governador, em 2006, e Paes, prefeito, em 2008, o PT nacional firmava sua aliança com o PMDB, assumindo definitivamente que abria largos flancos ao fisiologismo em troca do que considera ser a aplicação de seu projeto nacional. Cabral, inclusive, se tornou forte aliado do PT dentro do instável PMDB, e ocorreu, então, uma situação muito curiosa: depois de décadas de governos de campos políticos opostos, os três níveis de governo – federal, estadual e municipal – se reuniram em torno de um projeto em comum para o Rio – e em íntima parceria com a própria Rede Globo, opositora do PT desde sempre (com o ligeiro hiato entre 2002 e 2005, em que se aquietara diante da vitória de Lula, até o mensalão). Se a cidade e o estado do Rio já tinham penado financeiramente ao longo dos anos 80 e 90, a situação econômica voltou a melhorar, especialmente pelo dinamismo e renda da produção de petróleo; agora, com a união das três esferas, o dinheiro público passou a fluir ainda mais. Articulou-se, então, junto a interesses econômicos, um grande projeto, coroado pela escolha como sede das Olimpíadas, de tornar o Rio uma cidade-espetáculo – afeita aos grandes eventos, sofisticada, ou seja, cara – mas com muitas oportunidades de ganhar dinheiro.

Paralelamente, por necessária a este projeto, estabelecia-se a política de ocupação das favelas pelas UPPs, política com imenso apoio das classes médias e da elite, amplamente defendida pela Globo, e que se tornou o grande consenso estabelecido em torno da aprovação de Cabral. A Polícia Militar, então, assumiu papel de destaque nesse arranjo, fazendo o que sempre fez, oprimir a pobreza e garantir a propriedade, com as práticas herdadas dessa última ditadura e das anteriores, mas agora em nova escala e com maior legitimidade. Com o discurso de que estavam tomando a ofensiva contra os traficantes, o governo no fundo empurrou o problema para outras regiões do estado, legando apenas uma sensação de segurança – à custa de toda sorte de problemas que uma ocupação militar causa à população local –, abrindo, vejam vocês, grandes oportunidades para um mercado imobiliário que já se inflava com as expectativas de lucro com a cidade-espetáculo. Sobre os crimes praticados por PMs nas UPPs, nada, ou muito pouco, era falado nos jornais. Falou-se pouco que o problema tinha origem na ausência do próprio Estado, e que uma ocupação realmente transformadora deveria levar, em primeiro lugar, serviços públicos às favelas, tendo a segurança um papel secundário, e não o papel exclusivo que tem nas UPPs.

Projeto do Maracanã – desconfiguração do caráter social do estádio, elitização do público, demolição de bens tombados, da escola Friedenreich e da Aldeia Maracanã

E, assim, o projeto seguiu. Cidade e estado propagandeavam seu novo momento, um novo rumo. Inúmeras obras foram anunciadas e iniciadas, algumas de fato importantes, como nos transportes, outras no mínimo questionáveis, como a reforma e privatização do Maracanã, mas, junto com a imagem das UPPs, emergiu o consenso estranho, reunindo o PMDB (e, por extensão, o PT), a Rede Globo e a Polícia Militar, junto ao poder econômico. E esse projeto poderia estar ainda a pleno vapor, mas, pelas ironias da História, algo aconteceu.
Uns revoltados em Porto Alegre, e depois em São Paulo, começaram a ir pra rua contra mais um aumento de passagens – fato, aliás, que já ocorria nos últimos anos. E, sim, de fato a passagem estava muito cara – os cariocas também reclamaram do aumento, e alguns também foram pra rua. A polícia sentou o cassetete e as balas de borracha, pegou pesado em São Paulo e, de repente a coisa esquentou no Brasil inteiro. No Rio, dia 13/6, dez mil na rua; dia 17/6, cem mil na rua e tentativa de invasão da Alerj; dia 20/6, talvez um milhão de pessoas na rua, e a ação pesada da Polícia Militar ultrapassando todos os limites das últimas décadas do pós-ditadura em plena Avenida Presidente Vargas e por toda a região central do Rio.

No Brasil inteiro, transbordaram-se os limites que as pessoas até então estavam se permitindo tolerar: a vida urbana ficando cara, serviços de baixa qualidade, descrença com o sistema político, a tão falada nova classe C encontrando os limites de seu próprio crescimento… No Rio, além das motivações nacionais, o projeto articulado em torno de Cabral e Paes também começou a cobrar suas contas: aumento ainda maior do custo de vida, bolha imobiliária, política de remoções, desconfiguração do público em favor do privado e os crimes ocorridos nas UPPs – com o aumento da violência da PM e reação das ruas com mais manifestações, a Globo e demais órgãos de imprensa tentam se diferenciar dos governos, e criticam excessos, casos como o de Amarildo, certamente comuns, começam a aparecer.

Farra de empresários e secretários de governo de Cabral e Paes em Paris – explicitando laços com o grande Capital. Revelada mais de um ano antes das manifestações, foi amplamente relembrada neste ano.

Com a crítica à política de segurança, o grande alicerce do consenso é abalado, e as demais precariedades dos serviços públicos, estaduais e municipais, se evidenciam – pois mais verbas não implicaram diretamente em melhores políticas, e deficiências nos transportes, na saúde e educação públicas, antes ofuscadas pelos sucessos da política de segurança, voltam à tona. A relação de Cabral e Paes com grandes nomes do poder econômico reacende a velha certeza da corrupção, e, elevada ao nível nacional, com certo antipetismo crescente – fomentado pela Globo e suas congêneres – exacerbou-se a crítica ao poder instituído. O ‘Fora Cabral’, as bandeiras do Brasil e o cantar do hino nacional, o ‘Não vai ter Copa’, o ‘Sem partido’, são junções dessas infindas causas sociais e particulares, e que no Rio tiveram os agravantes de sua atual situação social, política e econômica. O que parecia um grande projeto, a redenção da Bela Capital, se revelava uma grande máquina de fazer dinheiro, mal alicerçada em políticas precárias. Só para falar da educação municipal e estadual como parte desse projeto: implantaram-se sistemas baseados na lógica de mercado, destinaram-se grossas verbas a instituições privadas, mas no fundo os problemas básicos de infraestrutura e de recursos humanos continuavam. Criava-se uma máquina de produzir índices de qualidade, mas fazendo da profissão de educador uma preparação para provas de avaliação, dividindo a classe na disputa pelos bônus relativos às próprias avaliações. Nesse jogo, muito dinheiro era repassado a entidades privadas – dentre elas, que surpresa, a Fundação Roberto Marinho – que seriam, na visão gerencial desses governos, mais competentes para pensar a educação do que os próprios profissionais aprovados em concursos públicos. No estado, mas principalmente no município, a tensão, a pressão sobre profissionais do ensino, a falta de condições, as exigências burocráticas, a descaracterização e o descrédito da profissão, tudo chegou ao ponto crítico e, embalados pelos atos de junho, rebentaram com a maior greve da categoria em décadas. A revolta era tamanha que esta categoria, tradicionalmente conservadora em aspectos de comportamento, e inicialmente crítica aos métodos mais combativos de manifestantes, foi paulatinamente simpatizando com os famigerados black blocs – afinal sofriam juntos da estratégia dos governos do PMDB, baseada na desinformação fornecida pela Rede Globo e na repressão pura e simples pela Polícia Militar.

Assembleia dos professores do município, com mais de 5 mil presentes, ao lado do Paço – tradicional praça do carnaval tomada pelos grevistas

Enfim, novamente a trinca herdada pelo nosso passado ressurge, soberana, na questão da educação, mas poderia ser mostrada nas políticas de remoção, na especulação imobiliária, na deformação e roubo puro e simples do Maracanã… Afinal estavam de fato articulados esses três encostos no leme de nossa cidade e estado. Fluminenses, e principalmente cariocas, não viam muitas opções políticas porque elas simplesmente não existem – governos sucessivos no Rio sucumbiram à política herdada do chaguismo. A Globo também sabe disso, e apostou todas as suas fichas no governo que, pelo menos, abrisse totalmente as portas ao investimento privado e que mudasse a sensação de insegurança social. As classes médias e as elites, política e econômica, os chamados formadores de opinião, quase todos se centraram nesse consenso, pois na ânsia de resolver a real crise social herdada das políticas econômicas da ditadura, da fusão das máquinas estaduais, do vácuo de poder e empobrecimento econômico, político e cultural do Rio, da falta de uma identidade regional, confundiam, consciente ou inconscientemente, precariedade do Estado com necessidade de privatização, e crise de segurança com necessidade de reprimir a pobreza.

Manifestantes acuados diante da 9º DP – policiais civis e militares quase chegam às vias de fato; a PM faz rondas de carro em volta da delegacia da Civil em clara demonstração de força http://oglobo.globo.com/rio/policia-civil-vai-instaurar-inquerito-para-apurar-se-houve-abuso-ou-excessos-da-pm-em-confronto-em-frente-9dp-9537895

Mas isso não quer dizer que essa articulação seja unitária, é claro que há tensões. A mais óbvia é a constrangedora relação de Cabral com o PT, mas nem isso impediu a Globo de se aliar tão intimamente ao PMDB no Rio. Na sua defesa da violência do estado, por outro lado, a Globo têm os seus limites; quando a coisa fica feia, quando a PM, fazendo o que sempre faz, aparece mais do que deveria, a Globo tira o time de campo e muda seu discurso para a defesa dos direitos humanos. E parte do público antipetista que ela fomenta, a parte mais radical, que não vê problemas na atuação das polícias nas favelas e periferias, e os próprios policiais, acusam a ambiguidade da emissora, vendo, ironicamente, um certo grau de petismo na Globo. A Polícia Militar do Rio, por sua vez, que também tem uma longa história de controle social desde sua fundação por D. João VI – e se orgulha muito disso –, tampouco está livre de tensões. Há diversas divisões na PM, institucionais, com diferenças salariais, e também uma política de bônus, coisas que sempre motivam tensões. Ademais, a maioria dos policiais tem origem na classe trabalhadora, e por mais que a ideologia da ordem, francamente militarista, em que estão imersos, a cegueira tem limites. Mesmo que reprimam, e alguns com requintes de sadismo, nos momentos de deflagração das tensões sociais eles estão sujeitos às pressões físicas e psicológicas – seja por exaustão do corpo, seja por algum grau de consciência, podem também explodir. A tensão de Cabral, visível em seus discursos, em que trocara sua arrogância por uma fala meio apatetada, muito provavelmente via todas essas tensões – não apenas seus votos simplesmente sumiam sob os gritos de ‘Ei, Cabral, vai tomar no cu!’, como seu próprio aparato militar e suas relações perigosas à margem da lei deviam estar esquentando por dentro, já com algumas rusgas explícitas entre a PM e a Polícia Civil.

Entusiasmo com o início das operações da OGX, empresa cujo fracasso iniciaria a queda de Eike.

E, a prova mais cabal de que as mudanças na História podem ocorrer em rupturas, de que esse projeto pode ser amplamente denunciado e derrotado – o será se essas tensões internas entre PMDB, Globo e PM se esgarçarem – é a queda fenomenal de Eike Batista. Ele, sempre ele, símbolo dos vínculos da aliança PT/PMDB com o grande capital e com o discurso gerencial privatista, explicitou as incompetências e riscos do próprio modo privado de agir e gerenciar. Pois não foram conjunções astrais que levaram à sua queda antes impensável, e sim a expansão de seu capital para diversos ramos sem ter a capacidade gerencial para todos, revelando diversos fracassos, em especial na prospecção de petróleo. Deixando para trás vários micos, revelando acordos escusos, como muitas das suas promessas de investimento no projeto da cidade-espetáculo, dentre elas a reforma do Hotel Glória e suas pretensões de abocanhar a Marina, espaço público tombado. A queda de Cabral, alinhada à queda de Eike, também é prova das possíveis mudanças; o Maracanã foi perdido, não aguentou até junho de 2013, mas o tombamento da escola Friedenreich e mudanças com relação ao antigo Museu do Índio, ambos no entorno do projeto do Maracanã, foram vitória do grito das ruas, assim como a redução a nível nacional das passagens e a ampliação de diversos debates como a política de transportes, de educação e a desmilitarização das polícias.

Plenária histórica do dia 25 de junho no IFCS. Apesar das falhas de condução e futura fragmentação, as cerca de três mil pessoas presentes mostram o potencial de uma alternativa de esquerda radical no Rio.

Existe muito poder por trás do ‘Fora Cabral, vá com Paes’, mostrou-se nitidamente mais forte pela situação política, social e econômica do Rio. Se a crise pode ruir com esse projeto? Não há ainda como saber, são acontecimentos ainda em trama. Cabral está para deixar o governo, com sua mais baixa aprovação, mas o projeto pode continuar sem ele, como provam as novas incursões militares nas favelas, com apoio do governo federal. Nosso papel, agora, é denunciar a amplitude desse projeto de assalto à cidade e ao estado, e a necessidade do Rio buscar seu próprio rumo – e não será com esses três encostos no seu leme que as coisas vão mudar. É claro que esse Rio é, também, dividido, não haverá um projeto alternativo de consenso, mas é preciso que surjam as alternativas – e o campo da esquerda radical deve também se ver em termos mais amplos, de construção, não apenas de sua prática nas ruas e assembleias, mas sim da criação dos nossos projetos sociais, pois se temos tantas vertentes, não temos nenhum projeto social, amplo de fato, e que seja revolucionário.

Há muito poder – em potencial, e já atuante nas ruas –, mudanças maiores são possíveis – mesmo que nada esteja certo, agora. Mas o ano de 2014 é, também, potencialmente explosivo. Que tenhamos força e senso crítico suficientes para atravessar esses mares tormentosos.

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Angra no Canecão (15/12/2006)

Hoje se completa 3 anos do fechamento da tradicional casa de show Canecão, com promessas de reabertura em 2014. Resolvi resgatar um velho texto escrito por mim em 15/12/2006 que não estava disponível em blog ou site algum no intuito de relembrar a data.

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ANGRA – Aurora Consurgens Tour
Local: Canecão
Data: 15/12/2006

Cheguei junto com meus amigos no Canecão sob uma forte chuva, mas graças a Deus logo que nós fomos para a fila as portas da casa de show foram abertas e dessa forma pudemos nos proteger da chuva enquanto esperávamos o show.

O recinto encheu rapidamente e o público compareceu em peso, não sei se o show chegou a ser “sold out”, mas se não foi deve ter chegado perto disso. Como a abertura para a entrada do público começou as 20h00 e o show estava marcado apenas para às 22h00 a espera pareceu uma eternidade. Quase que pontualmente o show começou no horário previsto.

Era possível sentir uma certa eletricidade percorrendo o público e a explosão de energia logo na primeira música foi algo surpreendente. E surpreendente também foi a performance da banda durante todo o show, fazendo com que um certo estigma de que o Angra não é uma banda boa ao vivo caiu por terra.

O vocalista Edu Falaschi apesar de cometer alguns exageros ao longo do show (principalmente nas caras e bocas que faz durante a execução das músicas) se saiu bem na maior parte das vezes. A dupla baixo-bateria é aquela competência e qualidade que todos conhecem e que acho que ninguém terá a insanidade de questionar. Mas com certeza o grande destaque desse show foram os guitarristas Rafael e Kiko, ambos detentores de uma técnica apuradíssima. Fica até difícil de escolher qual dos dois se saiu melhor (se é que é possível fazer tal escolha), eu particularmente sou um grande fã da técnica do senhor Kiko Loureiro (o único carioca da banda, mas isso é só coincidência).

É de se destacar o fato desse show ter um clima de festa e de comemoração (no caso o aniversário de 15 anos da banda). É por isso que a banda fez a gentileza de colocar mais músicas da fase André Matos no set list (nada mais nada menos que 5 músicas; coisa que a muito tempo eles não faziam), de introduzir uma parte acústica no show (que muitas pessoas acharam chata mas que eu gostei) e também a brincadeira de trocar os instrumentos que cada integrante tocava, o que foi muito maneiro. Também teve o momento em que a banda chamou 15 pessoas do público (representando cada um dos 15 anos da banda) para subir no palco e cantar junto com todos os presentes “Parabéns Para Você”. Foi um momento bastante emocionante para os verdadeiros fãs da banda.

Um momento interessante também foi um vídeo que foi exibido no telão no meio do show (entre o set normal e a parte acústica da apresentação), que trazia um pequeno relato de cada um dos integrantes da banda intercalado com imagens do novo vídeo clip gravado pela banda (da música The Course of Nature). Pelo o que eu pude ver deve ser o melhor clip que o Angra já gravou (o que não é difícil levando em conta que a maior parte dos vídeos gravados por eles são em geral toscos).

Acho que não tem mais nada que valha a pena ser dito sobre esse grande show (acho que seria redundante destacar mais uma vez as qualidades dessa banda) além de umas rápidas considerações:

1) Acho que faltou músicas dos EPs Freedom Call (o único da fase André Matos que não teve uma única música sequer tocada) e Hunters and Prey (desde a turnê do Temple of Shadows que eles não tocam nenhuma música desse EP).
2) Podiam ter tocado mais uma música do álbum Fireworks (Metal IcarusSpeed ou Lisbon).
3) É a turnê de divulgação do novo álbum, então porque tocar apenas 5 músicas novas? Eu esperava ouvir as outras também, especialmente a maravilhosa Passing By.
4) Foi desnecessário Edu Falaschi cantar e tocar a música Pegazus Fantasy. Explico melhor: essa é a música-tema do anime japonês Cavaleros do Zodíaco (Saint Seya no original) e a versão brasiliana da música foi gravada pelo Edu. Mas na minha opinião isso não tem nada a ver com o Angra, e deveria ser deixada para os shows solos do vocalista.
5) A casa de shows Canecão é realmente para a elite da zona sul. Um refrigerante lá saia por 4 R$ (!!!!) e o saquinho de batata frita por 5 R$ (!!!!!!). Ou seja quem quisesse matar a sede com um refrigerante (num dia quente como o de ontem era quase uma necessidade) e comer umas batatinhas para aplacar a fome teria que desembolsar 9 R$. Um absurdo! Acho que gosto mais do Circo Voador, lá os preços da bebida estão de acordo com a realidade vivida no Brasil.
6) Apesar do show ter sido longo (eu saí de lá cansado quase morto) acho que deveria ter tido uma banda de abertura. Considero importante essas bandas já estabelecidas e com grande público darem espaço para outras que ainda estão batalhando para conseguir conquistar fãs. Aqui no Rio de Janeiro então há muitas bandas de qualidade que deveriam ter a chance de mostrar o som que fazem para o grande público.
7) Rafael Bittencourt é melhor vocalista que o Edu Falaschi.

No mais é só isso mesmo. Fica a espera pela volta do Angra no Rio de Janeiro (ainda nem completou 24h00 que rolou o show e já estou com saudades). Para concluir acho que devo elogiar a iniciativa da loja Hard N’Heavy por ter produzido esse show (e eles já anunciaram Blind Guardian para Março de 2007 no Canecão).

Set List:
Unfinished Allegro
Carry On/Nova Era
The Voice Commanding You
Waiting Silence
Wings Of Reality
Z.I.T.O.
Angels Cry
Heroes of Sand

SET ACÚSTICO
Wishing Well
No Pain for the Dead
Abandoned Fate
Late Redemption

VOLTA AO SET NORMAL
Ego Painted Grey
Angels And Demons
Salvation: Suicide
Nothing To Say
Rebirth
The Course of Nature
Deus Le Volt/Spread Your Fire

Come Together (FORMAÇÃO TROCADA: Kiko Loureiro – Vocal, Felipe Andreoli – bateria, Edu Falaschi – guitarra, Aquiles Priester – baixo, Rafael Bittencourt –guitarra)

Smoke on the Water (FORMAÇÃO TROCADA DE NOVO: Kiko Loureiro – bateria, Felipe Andreoli – guitarra, Edu Falaschi – guitarra, Aquiles Priester – baixo, Rafael Bittencourt – vocal)

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E então, que quereis?

“Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.”
 

(Vladmir Maiakowski, 1927)

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Poesia em prosa

EMBRIAGAI-VOS

“É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: – É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor”. (Charles Baudelaire)

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Processo de verdade

Nosso mundo não é de maneira alguma tão “complexo” quanto querem aqueles que desejam garantir sua perpetuação. Ele é até, em suas grandes linhas, de uma perfeita simplicidade.

 Por um lado, há uma ampliação contínua dos automatismos do capital, o que é a realização de uma predição genial de Marx: o mundo enfim configurado, mas como mercado, como mercado mundial. Essa configuração faz prevalecer uma homogeneização abstrata. Tudo o que circula cai em uma unidade de conta e, inversamente, somente circula o que se deixa assim contar. Além disso, é essa norma que esclarece um paradoxo que poucos salientam: na hora da circulção generalizada e do fantasma da comunicação cultural instantânea, mutiplicam-se por toda parte as leis e os regulamentos para proibirem a circulação de pessoas. É assim que, na França, jamais houve tão poucos estrangeiros instalados como no último período! Livre circulação do que se deixa contar, sim, e em primeiro lugar dos capitais, do que é a conta da conta. Livre circualção da incontável infinidade que é uma vida humana singular, jamais! É que a abstração monetária capitalista é certamente uma singularidade, mas uma singularidade que não tem relação com nenhuma singularidade. Uma singularidade indiferente à persistente infinidade da existência, assim como ao devir das verdades pertinentes aos acontecimentos.

 Por outro lado, há um processo de fragmentação em identidades fechadas, e a ideologia culturalista e relativista que acompanha essa fragmentação.

 Esses dois processos são perfeitamente intricados. Pois cada identificação (criação ou bricolagem de identidade) cria uma figura que constitui matéria para seu investimento pelo mercado. Nada mais cativo, para o investimento mercantil, nada mais oferecido para a invenção de novas figuras da homogeneidade monetária, do que uma comunidade e seu ou seus territórios. É preciso a aparência de uma não equivalência para que a própria equivalência seja um processo. Que futuro inesgotável para os investimentos mercantis, tal qual o surgimento – em forma de comunidade reivindicativa e de pretensa singularidade cultural – das mulheres, dos homossexuais, dos deficientes, dos árabes! E as combinações infinitas de traços predicativos, que oportunidade! Os homossexuais negros, os sérvios inválidos, os católicos pedófilos, os islamitas moderados, os padres casados, os jovens executivos ecologistas, os desempregados submissos*, os jovens já velhos! Constantemente, uma imagem social autoriza produtos novos, revistas especializadas, centros comerciais adequados, rádios “livres”, redes publicitárias dirigidas a alvos específicos e, enfim, obstinados “programas de debates” nos horários de grande audiência. Deleuze dizia exatamente isto: a desterritorialização capitalista tem necessidade de uma constante reterritorialização. O capital exige, para que seu princípio de movimento torne homogêneo seu espaço de exercício, o permanente ressurgimento de identidades subjetivas e territoriais, as quais, aliás, reivindicam apenas o direito de serem expostas, da mesma maneira que as outras, às prerrogativas unifromes do mercado. Lógica capitalista do equivalente geral e lógica identitária e cultural das comunidades ou das minorias formam um conjunto articulado.

 Essa articulação é constrangedora em relação a qualquer processo de verdade. Ela é organicamente sem verdade.

 Por um lado, todo processo de verdade encontra-se em ruptura com o princípio axiomático que rege a situação e organiza suas séries repetitivas. Um processo de verdade interrompe a repetição e, portanto, não pode se sustentar da permanência abstrata de uma unidade de conta. Uma verdade é sempre, de acordo com a lei de conta dominante, subtraída da conta. Nenhuma verdade pode, por consequência, sustentar-se da expansão homogênea do capital.

 Mas, por outro lado, um processo de verdade não pode mais se ancorar no identitário. Pois, se é certo que toda verdade surge como singular, sua singularidade é imediatamente universalizável. A singularidade universalizável necessariamente entra em ruptura com a singularidade identitária.

 Que haja histórias emaranhadas, culturas diferentes e, de modo mais geral, diferenças já imensas em um único e “mesmo” indivíduo, que o mundo seja heterogêneo e que ele não deixe as pessoas, viverem, comerem, vestirem-se, imaginarem e amarem como elas querem, não é aí que está a questão, como os falsos ingênuos querem nos fazer crer. Essas evidências liberais não custam caro e gostaríamos apenas que aqueles que as proclamam não se mostrassem tão violentos quando aparece a menor tentativa mais ou menos séria de se distinguir de sua própria pequena diferença liberal. O cosmopolitismo contemporâneo é uma realidade salutar. Demanderemos somente que a visão de uma jovem que usa véu não coloque em transe seus defensores, o que tememos uma vez que eles não desejam, na realidade, mais do que um verdadeiro tecido de diferença instáveis, a ditadura uniforme do que acreditam ser a “modernidade”.

 A questão é saber o que as categorias identitárias e comunitaristas têm a ver com os processos de verdade, por exemplo, os processos políticos. Respondemos: essas categorias devem ser ausentadas do processo, sem o que nenhuma verdade tem a menor chance de estabelecer sua persistência e de acumular sua infinidade imanente. Aliás, sabemos que as políticas identitárias consequentes, como o nazismo, são guerreiras e criminosas. A ideia que se possa, mesmo sob a forma da identidade francesa “republicana”, manipular inocentemente essas categorias é inconsistente. Oscilaremos forçosamente entre o universal abstrato do capital e perseguições locais.

 O mundo contemporâneo é, assim, duplamente hostil aos procesos de verdade. O sintoma dessa hostilidade dá-se por superposições nominais: onde se deveria manter o nome de um procedimento de verdade, vem outro nome, que o recalca. O nome cultura vem obliterar o da arte. A palavra técnica oblitera a palavra ciência. A palavra gestão oblitera a palavra política. A palavra sexualidade oblitera o amor. O sistema cultura-técnica-gestão-sexualidade, que tem o imenso mérito de ser homogêneo no mercado e cujos termos, aliás, designam uma rubrica da apresentação mercantil, é a superposição nominal moderna do sistema arte-ciência-política-amor, que identifica tipologicamente os procedimentos de verdade. 

 Ora, a lógica identitária, ou minoritárias, longe de se voltar para uma apropriação dessa tipologia, propõe apenas uma variante da superposição nominal capitalista. Ela polemiza contra todo conceito genérico da arte e o substitui por sua própria conta pelo de cultura, concebido como cultura do grupo, amálgama subjetivo ou representativo de sua existência, cultura destinada a si e potencialmente não universalizável. Além disso, ela não hesita em enunciar que os elementos constitutivos dessa cultura são plenamente compreensíveis somente se pertencerem ao subconjunto considerado. Daí os enunciados catastróficos do gênero: somente um homossexual pode “compreender” o que significa ser homossexual, um árabe o que significa ser árabe etc. Se, como pensamos, somente as verdades (o pensamento) permitem distinguir o homem do animal humano que o subentende, não é exagerado dizer que esses enunciados “minoritários” são realmente bárbaros. No caso da ciência, o culturalismo promove a particularidade técnica dos subconjuntos à equivalência do pensamento científico, de modo que os antibióticos, o xamanismo, a imposição das mãos ou as tisanas relaxantes são uniformizados. No caso da política, a consideração de traços identitários encontra-se na base da determinação, seja ela estatal ou reivindicativa, e finalmente se trata de inscrever, pelo direito ou pela força bruta, uma gestão autoritária desses traços (nacionais, religiosos, sexuais etc.), considerados operadores políticos dominantes. E, enfim, no caso do amor, demanda-se simetricamente seja o direito genético de ver reconhecido como identidade minoritária esse ou aquele comportamento sexual específico, seja a volta pura e simples às concepções arcaicas, culturalmente estabelecidas, como a conjugabilidade estrita, o aprisionamento das mulheres etc. Os dois podem combinar perfeitramente, como na reividicação dos homossexuais relativas ao direito de unir o grande tradicionalismo do casamento e da família ou de vestir, com a benção do papa, os hábitos de monge.

 Os dois componentes do conjunto articulado (homogeineidade abstrata do capital e reivindicações identitárias) encomtram-se em uma relação espelhada e de diálogo. Quem pode pretender que seja evidente a superioridade do culto-competente-gerente-sexualmente-equilibrado? Mas quem defenderá o religioso-corrrompido-terrorista-polígamo? Ou celebrará o marginal-cultural-homeopata-midiático-transexual? Cada figura tira sua legitimidade tortuosa do descrédito do outro. Mas de qualquer maneira, cada um utiliza os recursos do outro, pois a transformação em argumentos publicitários  e imagens vendáveis das identidades comunitárias mais típicas e mais recentes corresponde à competência, constantemente afinada, dos mais fechados ou violentos grupos, para especular nos mercados financeiros ou para fomentar em grande escala o comércio de armas.

 Em ruptura com tudo isso (nem homogeneidade monetária, nem reivindicação identitária; nem universalidade abstrata do capital, nem particularidade dos interesses de um subconjunto), nossa questão formula-se claramente: quais são as condições de uma singularidade universal?

 *De acordo com Helena Hirata, “embora na França, existam diversas categorias institucionais de desempregados,‘chômeurs soumis’  [desempregados submissos] não consta na Anpe (Agence National pour l’Emploi). De maneira específica, existem desempregos que se sujeitam às injunções institucionais para ter direito ao seguro-desemprego e, de maneira geral, é possível pensar naqueles que se sujeitam à sua situação sem se revoltarem”.  Imagino que Alain badiou refira-se, aqui, aos primeiros. (N. T.)

 (Trecho do capítulo “Contemporaneidade de Paulo” presente no livro “São Paulo – A Fundação do Universalismo” do filósofo Alain Badiou)    

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Rio de Janeiro: beleza impura

“Eu poderia dizer que se trata da minha cidade, mas seria pouco: o Rio é o retrato mais forte da beleza impura. Fundada por portugueses, cresceu contra nós para se tornar aquilo que é – bela, cosmopolita, rica, miserável, canalha, bela, limpa, suja, romântica, erótica, festiva, melancólica. A corte portuguesa, fugitiva, emprestou-lhe poder; mas a graça, a beleza, a alegria e a malandrice, vieram depois, a com a imigração massiva, a misturança e o orgulho – ela é aquilo que nós poderíamos ter sido se não tivéssemos sido aquilo que fomos: uns aborrecidos.” (Francisco José Viegas, português, em seu blog Origem das Espécies)   

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Headbanger Metal Fest

Esse foi à primeira resenha que eu escrevi de um concerto de música (publicada originalmente num fórum de música no mês de Abril do ano de 2006):

Headbanger Metal Fest

Contrariando aquelas pessoas que insistem em afirmar que o cenário Heavy Metal do Rio de Janeiro está moribundo, cerca de 1.500 pessoas compareceram (números não oficiais, apenas uma estimativa minha) à casa de show Circo Voador para presenciar uma verdadeira noite de Heavy Metal.

Tendo como atrações os cariocas Reckoning, Kiko Loreiro (guitarrista do Angra) e Tribuzy. Mais os paulistanos do Dr. Sin.

O Show de Abertura

Infelizmente eu não pude presenciar o show da banda de abertura Reckoning, formada por Guilherme Sevens (Vocal), Carlos Saione (Guitarra), Felipe Bellard (guitarra), Paulo Doc Sands (baixo), Juninho Melo (bateria). Tendo pego apenas as últimas 2 músicas. Mas o que posso dizer sobre a banda é que as músicas funcionam bem ao vivo, também vale destacar a participação na última música do vocalista carioca Gus Monsanto que atualmente faz parte da banda francesa Adagio.

Kiko Loureiro

Um dos guitarristas de uma das mais importantes bandas (se não a mais importante) da história do Heavy Metal brasileiro mantém em paralelo às atividades da sua banda divulgando o álbum solo No Gravity. Quando os PAs começam a tocar a parte introdutória da música Pau-de-Arara as pessoas presentes (até então espalhadas pelo recinto) correm para ficarem mais perto do palco; logo no meio da fumaça surge o Guitar Hero e que também estava muito bem acompanhado pelo baixista Felipe Andreoli (também integrante do Angra) e pelo baterista Fernando Schaeffer (integrante da banda Pavilhão 9, ex-Korzus e Rodox).

Logo no início do show dava para perceber que o Kiko estava muito feliz de estar tocando, e apesar de ter fama de não ser simpático ele estava bastante comunicativo e sorridente. Um dos momentos mais engraçados do show foi quando ao introduzir a música Dillema ele perguntou que músicas as pessoas ainda não tinham escutado e queriam ouvir, e alguém na platéia gritou “Carry On” (provavelmente um dos maiores sucessos entre os fãs da banda Angra e um verdadeiro hino do Heavy Metal brasileiro) então Kiko respondeu: “quero pelo menos fazer um show na vida em que não tenha que tocar Carry On”. Também vale a pena comentar a excelente performance do baterista Fernando Schaeffer, que não só tocou de maneira ótima as músicas originalmente gravadas pelo baterista Mike Terrana (integrante da banda alemã Rage) como também fez um solo de bateria espetacular. Me atrevo a dizer que se tivesse sido ele o responsável pela gravação do álbum solo do Kiko as gravações teriam tido uma qualidade ainda maior do que já tem nas versões registradas no álbum.

E o que falar da performance do grande Kiko Loureiro? Simplesmente fantástica!!!! O sujeito além de tocar com perfeição improvisou vários solos, sem, no entanto, cair numa chatice ou masturbação instrumental. Muito pelo contrário, Kiko tem a capacidade de compor e de tocar músicas instrumentais que além de agradar músicos, também consegue agradar aqueles que só querem ouvir uma boa música.

Minhas únicas reclamações em relação ao show ficam por conta da pouca duração e pelo fato de Felipe Andreoli ter ficado apagado durante o show. Longe de ter tocado mal, mas quem conhece o trabalho dele com as bandas Angra e Karma sabe do que ele é capaz.

Tribuzy

Para quem nunca ouviu falar do vocalista Renato Tribuzy aqui vai um rápido resumo de sua biografia: Renato foi membro fundador da banda Thoten que lançou no ano de 2001, o álbum Beyond The Tomorrow, que teve uma excelente repercussão na mídia especializada brasileira e que colocou a banda carioca como uma das maiores promessas do Heavy Metal brasileiro. Mas, por divergências com os outros integrantes, e para se dedicarem a outros projetos Renato Tribuzy e Frank Schieber (guitarrista) saem da banda. Renato através de muito esforço conseguiu juntar vários músicos de peso para participar de seu primeiro álbum solo que contou com a participação de Roland Grapow (guitarrista do Masterplan, ex-Helloween, que faz os solos de guitarra nas faixas Absolution e Web Of Life), Bruce Dickinson (que canta junto com Tribuzy na faixa Beast In The Light), Mat Sinner (vocalista e baixista da banda Sinner e baixista da banda Primal Fear, que canta na faixa Nature Of Evil), Ralf Scheepers (vocalista da banda Primal Fear, ex-Gamma Ray que faz backing vocals na faixa Nature Of Evil), Michael Kiske (vocalista da banda/projeto Place Vendome, ex-Supared e Helloween, que canta na faixa Absolution), Roy Z (guitarrista da banda solo de Bruce Dickinson, que faz solo de guitarra na faixa Beast In The Light) e Dennis Ward (baixista da banda Pink Cream 69 e que gravou o baixo da faixa Nature Of Evil). Além desses ilustres convidados, o álbum Execution conta com as guitarras base gravadas pelo carioca Gustavo Silvera (integrante da banda Nordheim), solos de guitarra por Kiko Loureiro, baixo gravado por Chris Dale (baixista da banda solo do Bruce Dicknson), bateria gravada por Marcos Barzo (da banda Thoten) e teclados por Sidney Sohn (teclado e assim como Renato e Frank é um ex-Thoten). O resultado de todo esse esforço e de músicas da mais alta qualidade e uma boa divulgação, não poderia ser outro senão um grande sucesso. O álbum tem sido muito bem recebido pelos críticos e pelo público em países como Brasil, Argentina, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Japão etc…

E é aqui nesse ponto que nos encontramos. Vale ressaltar que nenhum dos que gravou o álbum Execution faz parte atualmente da banda Tribuzy. Atualmente a banda é completada além do Renato por Frank Scheiber (guitarra), Flavio Pascarillo (bateria), Ivan Guilhon (baixo), Sidney Sohn (teclado) e Eduardo Fernandez (guitarra). O detalhe interessante é que Flavio, Ivan e Eduardo são todos integrantes da banda Nordheim. Basicamente hoje, a banda Tribuzy é uma junção de ex-integrantes da banda Thoten e de integrantes da banda Nordheim.

Uma série de barulhos de tiros e explosões que saem dos PAs é um aviso de que o show vai começar e as pessoas começam a se aglomerar na frente do palco, então a banda manda de cara a música Execution. E logo deu para perceber o porque da banda em tão pouco tempo conseguir tanto prestígio para si: Renato simplesmente canta ao vivo de maneira igual ao que ele grava em estúdio, além de ter uma boa presença de palco, e os outros integrantes da banda não deixam em nada a desejar em relação aos músicos que gravaram o álbum. O destaque vai com certeza para o baixista Ivan, que tem uma performance de palco simplesmente insana.

É impressionante ver como grande parte do público já sabe de cor várias das músicas da banda. O show ia correndo de uma maneira extremamente positiva com uma platéia animada e participativa, e com uma banda afiada. Devo destacar um momento engraçado quando entre 2 músicas a banda teve que esperar porque Frank estava com dificuldade para conectar a nova guitarra que ele tinha pego, então Tribuzy falou com todo o duplo sentido: “algumas pessoas tem dificuldade de acertar o buraco no escuro”. Já para o final do show Kiko apareceu para tocar junto com a banda e com três guitarristas tocando juntos eles mandaram Nature Of Evil (cover da banda Sinner), e depois a música Bring Your Daughter To The Slaughter (cover do Iron Mainden) que fez todo o público berrar o refrão da música junto com o Tribuzy.

Foi com certeza um grande show, e já se pode afirmar que a banda Tribuzy é uma promessa que está se transformando em realidade, e que provavelmente irá se firmar como um dos nomes mais importantes da cena Metal brasileira.

Dr. Sin

O Power Trio de Hard Rock Dr. Sin, formado por Eduardo Ardanuy (guitarra), . Andria Busic (Vocal/Baixo) e Ivan Busic (Bateria/vocal), é provavelmente uma das bandas mais injustiçadas da história do rock brasileiro, mesmo tendo conseguido formar com o tempo um público fiel nunca conseguiu atingir um mesmo nível de popularidade de bandas como Sepultura, Angra, Shaaman ou Krisiun, mesmo que ao longo desses mais de 10 anos de carreira a banda tenha gravado excelentes álbuns e feito turnês com freqüência. Atualmente a banda está divulgando o álbum Listen To The Doctors, que tem uma proposta muito interessante, que é a de gravar versões de músicas de outras bandas que tenham a palavra “doctor” no nome.

E foi exatamente com um cover presente no álbum que a banda começou o show, trata-se de Calling Doctor Love (música originalmente gravada pela banda Kiss). Eu particularmente nem gosto da versão original da música (que me desculpem os fãs do Kiss), mas devo dizer que a versão feita pelo Dr. Sin ficou de arrasar e ainda teve uma participação excelente da platéia especialmente no refrão. Mas o show pegou fogo mesmo com a incrível performance da banda para a música seguinte, trata-se da pesada Fire, que além ter excelente vocal de Andria, também manteve a interação do publico, que cantou o refrão como se a vida deles dependesse disso.

E conforme o show prosseguiu o Dr. Sin fez questão de exteriorizar a felicidade deles de estarem tocando novamente no Rio de Janeiro, e que amam o público daqui. O público carioca por sua vez fez questão de demonstrar que o sentimento era recíproco.

Ao longo do show todos os integrantes da banda tiveram chance de mostrar seus talentos como instrumentistas, e a banda conseguiu manter intacta a fama de ser formada por músicos virtuosos, mas que não deixam de fazer músicas empolgantes. Também é merecedor de elogios o tecladista Rodrigo Simão, que não só cumpriu sua função como músico de apoio mas também demonstrou ser um tecladista fantástico.

Mas provavelmente o momento mais marcante do show foi quando Andria estava para apresentar o maior sucesso deles (a música Mulher, Futebol e Rock’n Roll), e começou a puxar assunto sobre futebol, perguntando sobre qual era o time das pessoas na platéia (basicamente as respostas eram Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo), mas depois ele começou a perguntar sobre possíveis torcedores na platéia de times paulistanos, como ele mesmo reparou que não ia ter qualquer apoio falou: “nem fudendo né”? E quando falou que o melhor time brasileiro é o Corinthians ele logo pediu para não ser morto por isso. Quando a música começou a rolar o que se viu foi a maior participação da platéia no evento (demonstrando que de fato essa música goza de uma popularidade enorme entre o público). Também vale destaque para uma brincadeira que Andria resolveu fazer no meio da música, na parte em que se canta “etaetaeta, brasileiro gosta é de boceta”, uma brincadeira e falou: “já fui chamado de machista 3 vezes hoje por causa dessa música, por isso vou dar uma chance para as mulheres: etaetaeta brasileira gosta de …”, mas acontece que a parte feminina deixou o cara na mão, então Andria falou: “rapazes, como essas mulheres não querem nada então vamos cantar: etaetaeta, brasileira gosta é de… DINHEIRO” (momento esse que teve uma alta participação masculina).

Com o fim da música teve fim uma excelente noite de Heavy Metal. Da performance do Dr. Sin só se teve a lamentar uma duração curta demais para tocarem tudo aquilo que o publico esperava. Acabaram por não tocar quase nada do novo álbum. Além da primeira música que abriu o show apenas Dr. Rock (cover do Motorhead) foi tocada. Mesmo assim foi uma grande performance.

Considerações finais sobre o evento

A iniciativa da loja Headbanger de ter produzido um show só com nomes nacionais é dos mais louváveis. Os próprios artistas participantes do evento gostaram de realçar o agradecimento deles a coragem e iniciativa da Headbanger. Também merece atenção o fato do público comparecer em peso mesmo tendo a concorrência do show da banda alemã Destruction que ira ocorrer aqui no Rio brevemente (ou já ocorreu, sei lá). E pelo fato do evento ocorrer numa véspera de feriado.

E que venha mais shows por aí!

Colaborou para esse review: Thiago Oldrini.

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Errata: o publico pagante do show foi de 750 pessoas segundo o review do site Whiplash. O que demonstra que eu sou péssimo para fazer estimativas de quantidade de pessoas. Para quem quiser ler o review (que dá informações complementares em relação ao show) colocado no Whiplash aqui vai o link.

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