Processo de verdade

Nosso mundo não é de maneira alguma tão “complexo” quanto querem aqueles que desejam garantir sua perpetuação. Ele é até, em suas grandes linhas, de uma perfeita simplicidade.

 Por um lado, há uma ampliação contínua dos automatismos do capital, o que é a realização de uma predição genial de Marx: o mundo enfim configurado, mas como mercado, como mercado mundial. Essa configuração faz prevalecer uma homogeneização abstrata. Tudo o que circula cai em uma unidade de conta e, inversamente, somente circula o que se deixa assim contar. Além disso, é essa norma que esclarece um paradoxo que poucos salientam: na hora da circulção generalizada e do fantasma da comunicação cultural instantânea, mutiplicam-se por toda parte as leis e os regulamentos para proibirem a circulação de pessoas. É assim que, na França, jamais houve tão poucos estrangeiros instalados como no último período! Livre circulação do que se deixa contar, sim, e em primeiro lugar dos capitais, do que é a conta da conta. Livre circualção da incontável infinidade que é uma vida humana singular, jamais! É que a abstração monetária capitalista é certamente uma singularidade, mas uma singularidade que não tem relação com nenhuma singularidade. Uma singularidade indiferente à persistente infinidade da existência, assim como ao devir das verdades pertinentes aos acontecimentos.

 Por outro lado, há um processo de fragmentação em identidades fechadas, e a ideologia culturalista e relativista que acompanha essa fragmentação.

 Esses dois processos são perfeitamente intricados. Pois cada identificação (criação ou bricolagem de identidade) cria uma figura que constitui matéria para seu investimento pelo mercado. Nada mais cativo, para o investimento mercantil, nada mais oferecido para a invenção de novas figuras da homogeneidade monetária, do que uma comunidade e seu ou seus territórios. É preciso a aparência de uma não equivalência para que a própria equivalência seja um processo. Que futuro inesgotável para os investimentos mercantis, tal qual o surgimento – em forma de comunidade reivindicativa e de pretensa singularidade cultural – das mulheres, dos homossexuais, dos deficientes, dos árabes! E as combinações infinitas de traços predicativos, que oportunidade! Os homossexuais negros, os sérvios inválidos, os católicos pedófilos, os islamitas moderados, os padres casados, os jovens executivos ecologistas, os desempregados submissos*, os jovens já velhos! Constantemente, uma imagem social autoriza produtos novos, revistas especializadas, centros comerciais adequados, rádios “livres”, redes publicitárias dirigidas a alvos específicos e, enfim, obstinados “programas de debates” nos horários de grande audiência. Deleuze dizia exatamente isto: a desterritorialização capitalista tem necessidade de uma constante reterritorialização. O capital exige, para que seu princípio de movimento torne homogêneo seu espaço de exercício, o permanente ressurgimento de identidades subjetivas e territoriais, as quais, aliás, reivindicam apenas o direito de serem expostas, da mesma maneira que as outras, às prerrogativas unifromes do mercado. Lógica capitalista do equivalente geral e lógica identitária e cultural das comunidades ou das minorias formam um conjunto articulado.

 Essa articulação é constrangedora em relação a qualquer processo de verdade. Ela é organicamente sem verdade.

 Por um lado, todo processo de verdade encontra-se em ruptura com o princípio axiomático que rege a situação e organiza suas séries repetitivas. Um processo de verdade interrompe a repetição e, portanto, não pode se sustentar da permanência abstrata de uma unidade de conta. Uma verdade é sempre, de acordo com a lei de conta dominante, subtraída da conta. Nenhuma verdade pode, por consequência, sustentar-se da expansão homogênea do capital.

 Mas, por outro lado, um processo de verdade não pode mais se ancorar no identitário. Pois, se é certo que toda verdade surge como singular, sua singularidade é imediatamente universalizável. A singularidade universalizável necessariamente entra em ruptura com a singularidade identitária.

 Que haja histórias emaranhadas, culturas diferentes e, de modo mais geral, diferenças já imensas em um único e “mesmo” indivíduo, que o mundo seja heterogêneo e que ele não deixe as pessoas, viverem, comerem, vestirem-se, imaginarem e amarem como elas querem, não é aí que está a questão, como os falsos ingênuos querem nos fazer crer. Essas evidências liberais não custam caro e gostaríamos apenas que aqueles que as proclamam não se mostrassem tão violentos quando aparece a menor tentativa mais ou menos séria de se distinguir de sua própria pequena diferença liberal. O cosmopolitismo contemporâneo é uma realidade salutar. Demanderemos somente que a visão de uma jovem que usa véu não coloque em transe seus defensores, o que tememos uma vez que eles não desejam, na realidade, mais do que um verdadeiro tecido de diferença instáveis, a ditadura uniforme do que acreditam ser a “modernidade”.

 A questão é saber o que as categorias identitárias e comunitaristas têm a ver com os processos de verdade, por exemplo, os processos políticos. Respondemos: essas categorias devem ser ausentadas do processo, sem o que nenhuma verdade tem a menor chance de estabelecer sua persistência e de acumular sua infinidade imanente. Aliás, sabemos que as políticas identitárias consequentes, como o nazismo, são guerreiras e criminosas. A ideia que se possa, mesmo sob a forma da identidade francesa “republicana”, manipular inocentemente essas categorias é inconsistente. Oscilaremos forçosamente entre o universal abstrato do capital e perseguições locais.

 O mundo contemporâneo é, assim, duplamente hostil aos procesos de verdade. O sintoma dessa hostilidade dá-se por superposições nominais: onde se deveria manter o nome de um procedimento de verdade, vem outro nome, que o recalca. O nome cultura vem obliterar o da arte. A palavra técnica oblitera a palavra ciência. A palavra gestão oblitera a palavra política. A palavra sexualidade oblitera o amor. O sistema cultura-técnica-gestão-sexualidade, que tem o imenso mérito de ser homogêneo no mercado e cujos termos, aliás, designam uma rubrica da apresentação mercantil, é a superposição nominal moderna do sistema arte-ciência-política-amor, que identifica tipologicamente os procedimentos de verdade. 

 Ora, a lógica identitária, ou minoritárias, longe de se voltar para uma apropriação dessa tipologia, propõe apenas uma variante da superposição nominal capitalista. Ela polemiza contra todo conceito genérico da arte e o substitui por sua própria conta pelo de cultura, concebido como cultura do grupo, amálgama subjetivo ou representativo de sua existência, cultura destinada a si e potencialmente não universalizável. Além disso, ela não hesita em enunciar que os elementos constitutivos dessa cultura são plenamente compreensíveis somente se pertencerem ao subconjunto considerado. Daí os enunciados catastróficos do gênero: somente um homossexual pode “compreender” o que significa ser homossexual, um árabe o que significa ser árabe etc. Se, como pensamos, somente as verdades (o pensamento) permitem distinguir o homem do animal humano que o subentende, não é exagerado dizer que esses enunciados “minoritários” são realmente bárbaros. No caso da ciência, o culturalismo promove a particularidade técnica dos subconjuntos à equivalência do pensamento científico, de modo que os antibióticos, o xamanismo, a imposição das mãos ou as tisanas relaxantes são uniformizados. No caso da política, a consideração de traços identitários encontra-se na base da determinação, seja ela estatal ou reivindicativa, e finalmente se trata de inscrever, pelo direito ou pela força bruta, uma gestão autoritária desses traços (nacionais, religiosos, sexuais etc.), considerados operadores políticos dominantes. E, enfim, no caso do amor, demanda-se simetricamente seja o direito genético de ver reconhecido como identidade minoritária esse ou aquele comportamento sexual específico, seja a volta pura e simples às concepções arcaicas, culturalmente estabelecidas, como a conjugabilidade estrita, o aprisionamento das mulheres etc. Os dois podem combinar perfeitramente, como na reividicação dos homossexuais relativas ao direito de unir o grande tradicionalismo do casamento e da família ou de vestir, com a benção do papa, os hábitos de monge.

 Os dois componentes do conjunto articulado (homogeineidade abstrata do capital e reivindicações identitárias) encomtram-se em uma relação espelhada e de diálogo. Quem pode pretender que seja evidente a superioridade do culto-competente-gerente-sexualmente-equilibrado? Mas quem defenderá o religioso-corrrompido-terrorista-polígamo? Ou celebrará o marginal-cultural-homeopata-midiático-transexual? Cada figura tira sua legitimidade tortuosa do descrédito do outro. Mas de qualquer maneira, cada um utiliza os recursos do outro, pois a transformação em argumentos publicitários  e imagens vendáveis das identidades comunitárias mais típicas e mais recentes corresponde à competência, constantemente afinada, dos mais fechados ou violentos grupos, para especular nos mercados financeiros ou para fomentar em grande escala o comércio de armas.

 Em ruptura com tudo isso (nem homogeneidade monetária, nem reivindicação identitária; nem universalidade abstrata do capital, nem particularidade dos interesses de um subconjunto), nossa questão formula-se claramente: quais são as condições de uma singularidade universal?

 *De acordo com Helena Hirata, “embora na França, existam diversas categorias institucionais de desempregados,‘chômeurs soumis’  [desempregados submissos] não consta na Anpe (Agence National pour l’Emploi). De maneira específica, existem desempregos que se sujeitam às injunções institucionais para ter direito ao seguro-desemprego e, de maneira geral, é possível pensar naqueles que se sujeitam à sua situação sem se revoltarem”.  Imagino que Alain badiou refira-se, aqui, aos primeiros. (N. T.)

 (Trecho do capítulo “Contemporaneidade de Paulo” presente no livro “São Paulo – A Fundação do Universalismo” do filósofo Alain Badiou)    

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