O poder do ‘Fora Cabral, vá com Paes!’

Texto escrito por Lucas Hippolito von der Weid (versão completa para um texto originalmente publicado no blog Capitalismo em Desencanto em versão editada)


Quando estouraram as manifestações desteano, o Rio de Janeiro sonhava. Não o dito sono de um gigante adormecido, mas o do almirante de uma nave adernada, sonhando com o alto mar, o sonho nostálgico de uma bela capital de outrora, que não queria acordar para seu presente distópico, e que via nos governos de então sua nova saída, seu novo norte.

Mas, seguindo a maré das manifestações, o Rio de Janeiro que acordou não foi o almirante, e sim sua tripulação, despertando do sonho idealizado que a deixara parada, letárgica, mais letárgica do que qualquer outro membro do ufanista gigante. Acordava o Rio de Janeiro para sua dura realidade: afastado do poder central há décadas, com graves tensões sociais, em crise de identidade, tendo uma alternância de governos medíocres, mas esmerados em seu assalto ao Estado, não havia saída. Caía a máscara da maquiagem, centrada na política de pacificação e dos grandes eventos, e a onda que varreu as ruas do Rio – e que ainda reverbera, com muitas expectativas para o ano vindouro – se tornou a maior e mais duradoura do país, desdobrando-se ainda na forte greve de professores, inspirando movimentos em outras regiões. Abalava o almirantado, na verdade um conjunto de verdadeiros ‘encostos’ que domina nosso leme há décadas, heranças de um passado de ditaduras e mais: a rede de alianças de interesses políticos e econômicos que ora se manifestam no PMDB, na Rede Globo e na Polícia Militar.

Ato do dia 20 de junho – Av. Presidente Vargas

No início deste ano, cariocas acompanharam distantes os atos iniciados em Porto Alegre e potencializados em São Paulo contra o aumento das passagens. Afora poucos movimentos de contestação às políticas dos governos Cabral e Paes, centrados nos efeitos das obras na cidade, em especial no entorno do Maracanã, não havia no Rio de Janeiro sinal da magnitude dos atos e greves que ocorreriam. Insatisfação havia, sempre há, mas reinava uma espécie de resignação, que se podia supor pelos altos índices de aprovação dos governos; ademais, o senso comum festejava que as três esferas de poder estavam finalmente alinhadas, finalmente se combatia o tráfico, ganhando a Polícia Militar uma simpatia que não gozava, os grandes eventos, já antecipados em imagens da Rede Globo, afagavam o ego da cidade. A resistência dos poucos, em especial na defesa da escola Friedenreich e da Aldeia Maracanã contra as ambições dos governos, até que ecoava algum apoio, mas sem grandes consequências, e essas duas, a escola e a aldeia, já se configuravam como novas derrotas. Como explicar a discrepância? Como explicar que as aprovações despencaram? Como explicar a morte política de Sérgio Cabral (pelo menos nos próximos anos)?

Não há determinação última no decorrer da História, os acontecimentos podem ou não ocorrer, podem seguir rumos os mais diversos. Porém, os acontecimentos não são vazios de significados e não ocorrem de forma puramente espontânea; se ocorreram é porque puderam ocorrer, havia um potencial acumulado, e, em decorrência de seu acontecer, são lidos e relidos pelos seus sujeitos e sujeitados, que podem ou não entender o que está acontecendo, mas não vão para as ruas como tábulas rasas, têm seus motivos, sejam questões materiais imediatas, sejam profundos instintos ou ideias mais desenvolvidas, e essa costura do presente, as tramas desse acontecido, são feitas dessas questões, instintos e ideias, e não quaisquer outras. O passado não determina o futuro, mas o futuro não é estranho ao passado, muito pelo contrário, e na história recente do Rio de Janeiro podemos encontrar as raízes dessa trama, de onde vem o poder do ‘Fora Cabral, vá com Paes!’, estampado nos adesivos espalhados pela cidade.

Por que os protestos no Rio ganharam tamanha magnitude? Como explicar a súbita morte política de Sérgio Cabral? Talvez se possa estranhar essa questão, afinal protestos no Rio sempre ocorreram, o Rio sempre foi o centro, é referência para o país, capital cultural etc. Só que não é assim. Já há muito tempo…

Quando a capital federal deixou o Rio, em 1960, a cidade ainda era o centro político e cultural do país, simplesmente por inércia – até então, políticos e intelectuais de todas as regiões estavam no circuito do Rio, muitos deles se tornando políticos e intelectuais ‘cariocas’, das mais variadas vertentes políticas e ideológicas. São Paulo só recentemente suplantara o Rio em população e, politicamente, desde 1930, os paulistas ainda não tinham recuperado sua posição, o que não era compatível com o avanço de seu poder econômico. Nutriu-se por um tempo a imagem da cidade-estado para a recém-criada Guanabara (um estado provavelmente inviável em termos estruturais, mas isso é outro debate), ficando a imagem de uma idade de ouro, que vira e mexe é relembrada. A cidade cosmopolita, que teve jornais com nomes tais como Jornal do Brasil, O Globo, O Paíz, ainda brilhava no cenário, em contraste com as demais capitais provincianas do Brasil, e seus jornais Folhas e Estados quais.

Aterro do Flamengo, um dos símbolos do Estado da Guanabara, inaugurado por Lacerda

Com o golpe de 1964 e instauração da ditadura (que teve na recém-inaugurada Brasília uma capital convenientemente afastada dos centros políticos e culturais do país), o Rio não foi imediatamente abandonado, pelo contrário, dentre os articuladores do golpe havia a participação direta de grupos políticos e econômicos cariocas, além dos militares terem uma vinculação muito forte com o Rio (pela presença de suas escolas superiores, sede da esquadra e de inúmeras divisões etc.). Mas, por consequência do golpe, e da reação de setores da sociedade à ditadura, uma considerável parcela de instituições e lideranças foi perseguida ou simplesmente eliminada. Seja imediatamente depois do golpe, seja ao longo dos mais de vinte anos da ditadura, além de muitas lideranças e grupos políticos, grandes jornais da cidade vão sumindo da História, mesmo aqueles que tinham apoiado o golpe, como o Correio da Manhã, um dos maiores do período. Não se pode dizer que o Rio tenha sofrido mais da perseguição política do que outras regiões, mas tendo deixado de ser a capital, foi cessando a atração que fazia atores políticos ou culturais orbitarem a cidade, havendo um impacto maior, um ‘empobrecimento político e cultural’. Seja pela eliminação de quadros experientes ou diversificados ideologicamente na dita ‘classe política’, e seu caráter cada vez mais provinciano; seja pelo impacto na organização dos movimentos políticos e sociais (que continuaram com força no Rio, em especial no fim da ditadura, como a greve dos professores em 1979, e na década de 1980, mas que já não tinham o papel de liderança a nível nacional – haja vista a formação do PT e sua centralidade em São Paulo). Seja na própria imprensa, que passou por um processo muito significativo de redução, deixando a grande variedade de grandes veículos (mesmo que identificados ideologicamente em diversos aspectos) pela hegemonia quase total de um único grande grupo, a Rede Globo, uma vez que a Rede Manchete e o Jornal do Brasil também fecharam. A concentração da mídia também ocorreu em outros locais, mas no Rio o resultado foi mais radical; diferente de São Paulo e de grandes cidades do mundo, a antiga capital do Brasil agora tem apenas uma grande rede como referência política.

Chagas Freitas, banhando-se no Paraíba do Sul para atestar a boa qualidade da água

Todos esses processos estão ligados, evidentemente, à relação do Rio com a ditadura, que foi ambígua e nos restou desastrosa. Por um lado, o estado da Guanabara logo mandou mensagens de que seria um foco de resistência; foi o único que elegeu um governador da aliança PSD/PTB, de oposição, nas eleições de 1965. Com a redução dos partidos, em 1966, o MDB (partido criado pela ditadura para ser minoritário e manter a máscara de democracia) da Guanabara e do Estado do Rio ficaram fortes devido às forças articuladas por Getúlio décadas antes nos dois estados (o próprio Vargas, no Rio, e Roberto Silveira e Amaral Peixoto no Estado do Rio). No entanto, pela própria pressão da ditadura, ocorreu uma ‘limpeza’ ideológica no MDB – o partido conseguiu se manter no governo da Guanabara e depois do unificado estado do Rio de Janeiro por quase todo o período, mas à custa de afastar setores mais críticos à ditadura ou ligados a grupos mais radicais, tornados clandestinos. A política empobreceu em quadros e por perder seu caráter nacional; emergiu a figura de Chagas Freitas, governador e liderança do MDB (dono do jornal O dia, que depois venderia, e que também perderia importância), e com ele a política chamada chaguismo, o tecido de uma rede de apoios com lideranças locais, focada em questões locais, em troca de favores, em diálogo com o grande poder econômico, mas também tendo laços com a contravenção, jogo do bicho, escolas de samba… E, agora, milícias…

Charge de 1975, data da fusão dos dois estados. Vale a pena ler a crônica de Carlos Eduardo Novaes, ilustrada por esta charge, em http://memoria.bn.br/DocReader/cache/479705628473/I0119579-02PX=000000PY=000000.JPG

A ditadura teve que conviver com o MDB no Rio, mas nada impediu os governos militares de imporem sua condição: a fusão dos dois estados, e consequente perda de poder no congresso, ou seja, sua presença a nível nacional. Além disso, feita de cima pra baixo, sem consultas à população, a fusão das duas estruturas públicas foi tensa, e relegou muitos problemas, tendo o atual estado do Rio de Janeiro, cuja capital antes sempre gozara das verbas federais e dispusera de considerável estrutura de poder público (especialmente depois dos primeiros governos da Guanabara), se tornado exemplo de precariedade em seus serviços públicos.

Roberto Marinho de braços dados com o general Figueiredo, último ‘presidente’ da ditadura

Mas isso não significou um abandono do Rio pelo poder central, e aí vem o outro lado da moeda. Nas bases ideológicas e no projeto político da ditadura, o Rio cumpriu um papel importante; na exaltação da nacionalidade, na busca da integração e centralização do Brasil, a imagem do ‘país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza’ era a imagem do Rio, mostrada pela recém-instaurada rede de Televisão carioca, mas a nível nacional, a Rede Globo, enaltecendo a própria ditadura. Assim como o rádio e a ‘voz do Brasil’ na Era Vargas, agora a integração era projetada em imagens pelo ‘Jornal Nacional’ da Rede Globo. O carnaval do Rio era a cara do Brasil, a cidade que tinha o maior estádio do mundo, a maior ponte, verdadeira conquista da engenharia nacional, o time do Flamengo, com a maior torcida do Brasil… Todo brasileiro, gostando ou não, tinha referências do Rio – e os cariocas, por sua vez, não desenvolveram uma identidade regional, mantendo como identidade tanto a local quanto a nacional, que estavam sendo confundidas.

Nessa imagem, é claro, também figurava a defesa da repressão aos subversivos, da necessidade do controle social, ofuscando as críticas à ditadura, em especial nos seus momentos finais, com a tentativa de abafar as manifestações pelas Diretas Já, que já levavam um milhão às ruas de São Paulo. A Globo foi tamanho sustentáculo da ditadura, alimentando-se de verbas e devolvendo em propaganda, e espalhou de tal forma seus tentáculos políticos e econômicos com suas retransmissoras por todos os estados, que qualquer tentativa de reconhecimento de erro em apoio ao golpe é, por si só, a mais pura hipocrisia e afronta.

 

Crise dos anos 1980: Revolta de desempregados, iniciada em SP, em abril de 1983, se espalha para o Rio, onde ocorre uma grande onda de saques a supermercados, em setembro deste mesmo ano.

Com o fim da ditadura, duas décadas depois de deixar de ser a capital, o Rio de Janeiro já começava a padecer de problemas decorrentes do vácuo de poder político e econômico; como resultado das políticas de desenvolvimento da ditadura, São Paulo se estabeleceu definitivamente como centro econômico, mais industrializado e dinâmico, mas tanto a capital paulista quanto a fluminense sofreram com o processo de inchamento urbano. As tensões sociais se acirraram com a crise dos anos 1980, o estado não dá conta de garantir uma estrutura mínima para grande parte da população, e grandes regiões da antiga capital foram sendo literalmente esquecidas pelo poder público, abrindo espaço para o crescimento das quadrilhas, do tráfico ou demais formas de contravenção. Talvez pela topografia da cidade, permitindo bairros nobres de serem cercados de favelas, mas também muito em função da incapacidade do estado de garantir políticas mínimas de inclusão social, a cidade maravilhosa, a partir dos anos 80 e 90, se tornou sinônimo de cidade violenta e de crise social. A Polícia Militar, nesse cenário, prosseguiu, como sempre, em seu papel de conter a tensão social, tendo na Rede Globo um parceiro na legitimação e no próprio clamor pela violência.

Ao nível político, o Rio também deixou o centro do plano nacional, tanto pela sua política interna ter se tornado provinciana, quanto pelo fato do eixo político nacional ter se firmado,

Anos 1990 – a “cidade partida” – arrastões durante o segundo governo Brizola.

por fim, em São Paulo. Ao longo das três últimas décadas, a política brasileira se configurou em uma polarização entre PT e PSDB, ambos, partidos com projetos nacionais, e ambos tendo fortes pesos em suas bases paulistas. Curiosamente, porém, esses dois partidos ficaram muito fracos no Rio de Janeiro. Nos últimos anos, pelo contrário, ocorreu um processo de consolidação do PMDB no estado do Rio, com amplo domínio do interior e, finalmente, na própria capital; e não é surpresa ver no PMDB (o que restou do velho MDB) um partido sem projeto nacional, uma federação de oligarquias provincianas. Também não é surpresa entender que essa consolidação no Rio, a bem da verdade, começou com o próprio MDB e o chaguismo; mesmo sendo criticado pelos governos seguintes, todos, inclusive Brizola, mantiveram muitas das práticas dessa política pequena, fisiológica, em contato mais ou menos próximo de setores à margem da lei, como agora ocorre com as milícias. Os partidos se revezaram na política carioca e fluminense, mas o chaguismo de certo modo prevaleceu, agora retornando ao seu partido de origem. Junto a ele, porém, vingou uma profunda descrença com a política estadual, a certeza da corrupção, da precariedade dos serviços públicos e uma sensação de falta de qualquer opção razoável para as eleições. Aliás, fraco nos dois partidos que polarizaram a política nacional, o Rio de Janeiro acabou dando força para candidaturas presidenciais que pretenderam romper com a dualidade PT x PSDB – Garotinho, Heloisa Helena e Marina Silva tiveram votações expressivas no Rio. Isso, por si só, já sugere um afastamento da política fluminense do plano nacional, ou simplesmente uma demonstração de insatisfação.

Eleições presidenciais – o Rio em contraste com o Brasil (Fonte TSE e TRE/RJ)

Aliança das três esferas de poder

Mas o Rio, novamente, não se descolou de todo da política nacional, ainda que sua atual relação não esteja no nível da Política, mas sim da barganha. Ao passo que Cabral foi eleito governador, em 2006, e Paes, prefeito, em 2008, o PT nacional firmava sua aliança com o PMDB, assumindo definitivamente que abria largos flancos ao fisiologismo em troca do que considera ser a aplicação de seu projeto nacional. Cabral, inclusive, se tornou forte aliado do PT dentro do instável PMDB, e ocorreu, então, uma situação muito curiosa: depois de décadas de governos de campos políticos opostos, os três níveis de governo – federal, estadual e municipal – se reuniram em torno de um projeto em comum para o Rio – e em íntima parceria com a própria Rede Globo, opositora do PT desde sempre (com o ligeiro hiato entre 2002 e 2005, em que se aquietara diante da vitória de Lula, até o mensalão). Se a cidade e o estado do Rio já tinham penado financeiramente ao longo dos anos 80 e 90, a situação econômica voltou a melhorar, especialmente pelo dinamismo e renda da produção de petróleo; agora, com a união das três esferas, o dinheiro público passou a fluir ainda mais. Articulou-se, então, junto a interesses econômicos, um grande projeto, coroado pela escolha como sede das Olimpíadas, de tornar o Rio uma cidade-espetáculo – afeita aos grandes eventos, sofisticada, ou seja, cara – mas com muitas oportunidades de ganhar dinheiro.

Paralelamente, por necessária a este projeto, estabelecia-se a política de ocupação das favelas pelas UPPs, política com imenso apoio das classes médias e da elite, amplamente defendida pela Globo, e que se tornou o grande consenso estabelecido em torno da aprovação de Cabral. A Polícia Militar, então, assumiu papel de destaque nesse arranjo, fazendo o que sempre fez, oprimir a pobreza e garantir a propriedade, com as práticas herdadas dessa última ditadura e das anteriores, mas agora em nova escala e com maior legitimidade. Com o discurso de que estavam tomando a ofensiva contra os traficantes, o governo no fundo empurrou o problema para outras regiões do estado, legando apenas uma sensação de segurança – à custa de toda sorte de problemas que uma ocupação militar causa à população local –, abrindo, vejam vocês, grandes oportunidades para um mercado imobiliário que já se inflava com as expectativas de lucro com a cidade-espetáculo. Sobre os crimes praticados por PMs nas UPPs, nada, ou muito pouco, era falado nos jornais. Falou-se pouco que o problema tinha origem na ausência do próprio Estado, e que uma ocupação realmente transformadora deveria levar, em primeiro lugar, serviços públicos às favelas, tendo a segurança um papel secundário, e não o papel exclusivo que tem nas UPPs.

Projeto do Maracanã – desconfiguração do caráter social do estádio, elitização do público, demolição de bens tombados, da escola Friedenreich e da Aldeia Maracanã

E, assim, o projeto seguiu. Cidade e estado propagandeavam seu novo momento, um novo rumo. Inúmeras obras foram anunciadas e iniciadas, algumas de fato importantes, como nos transportes, outras no mínimo questionáveis, como a reforma e privatização do Maracanã, mas, junto com a imagem das UPPs, emergiu o consenso estranho, reunindo o PMDB (e, por extensão, o PT), a Rede Globo e a Polícia Militar, junto ao poder econômico. E esse projeto poderia estar ainda a pleno vapor, mas, pelas ironias da História, algo aconteceu.
Uns revoltados em Porto Alegre, e depois em São Paulo, começaram a ir pra rua contra mais um aumento de passagens – fato, aliás, que já ocorria nos últimos anos. E, sim, de fato a passagem estava muito cara – os cariocas também reclamaram do aumento, e alguns também foram pra rua. A polícia sentou o cassetete e as balas de borracha, pegou pesado em São Paulo e, de repente a coisa esquentou no Brasil inteiro. No Rio, dia 13/6, dez mil na rua; dia 17/6, cem mil na rua e tentativa de invasão da Alerj; dia 20/6, talvez um milhão de pessoas na rua, e a ação pesada da Polícia Militar ultrapassando todos os limites das últimas décadas do pós-ditadura em plena Avenida Presidente Vargas e por toda a região central do Rio.

No Brasil inteiro, transbordaram-se os limites que as pessoas até então estavam se permitindo tolerar: a vida urbana ficando cara, serviços de baixa qualidade, descrença com o sistema político, a tão falada nova classe C encontrando os limites de seu próprio crescimento… No Rio, além das motivações nacionais, o projeto articulado em torno de Cabral e Paes também começou a cobrar suas contas: aumento ainda maior do custo de vida, bolha imobiliária, política de remoções, desconfiguração do público em favor do privado e os crimes ocorridos nas UPPs – com o aumento da violência da PM e reação das ruas com mais manifestações, a Globo e demais órgãos de imprensa tentam se diferenciar dos governos, e criticam excessos, casos como o de Amarildo, certamente comuns, começam a aparecer.

Farra de empresários e secretários de governo de Cabral e Paes em Paris – explicitando laços com o grande Capital. Revelada mais de um ano antes das manifestações, foi amplamente relembrada neste ano.

Com a crítica à política de segurança, o grande alicerce do consenso é abalado, e as demais precariedades dos serviços públicos, estaduais e municipais, se evidenciam – pois mais verbas não implicaram diretamente em melhores políticas, e deficiências nos transportes, na saúde e educação públicas, antes ofuscadas pelos sucessos da política de segurança, voltam à tona. A relação de Cabral e Paes com grandes nomes do poder econômico reacende a velha certeza da corrupção, e, elevada ao nível nacional, com certo antipetismo crescente – fomentado pela Globo e suas congêneres – exacerbou-se a crítica ao poder instituído. O ‘Fora Cabral’, as bandeiras do Brasil e o cantar do hino nacional, o ‘Não vai ter Copa’, o ‘Sem partido’, são junções dessas infindas causas sociais e particulares, e que no Rio tiveram os agravantes de sua atual situação social, política e econômica. O que parecia um grande projeto, a redenção da Bela Capital, se revelava uma grande máquina de fazer dinheiro, mal alicerçada em políticas precárias. Só para falar da educação municipal e estadual como parte desse projeto: implantaram-se sistemas baseados na lógica de mercado, destinaram-se grossas verbas a instituições privadas, mas no fundo os problemas básicos de infraestrutura e de recursos humanos continuavam. Criava-se uma máquina de produzir índices de qualidade, mas fazendo da profissão de educador uma preparação para provas de avaliação, dividindo a classe na disputa pelos bônus relativos às próprias avaliações. Nesse jogo, muito dinheiro era repassado a entidades privadas – dentre elas, que surpresa, a Fundação Roberto Marinho – que seriam, na visão gerencial desses governos, mais competentes para pensar a educação do que os próprios profissionais aprovados em concursos públicos. No estado, mas principalmente no município, a tensão, a pressão sobre profissionais do ensino, a falta de condições, as exigências burocráticas, a descaracterização e o descrédito da profissão, tudo chegou ao ponto crítico e, embalados pelos atos de junho, rebentaram com a maior greve da categoria em décadas. A revolta era tamanha que esta categoria, tradicionalmente conservadora em aspectos de comportamento, e inicialmente crítica aos métodos mais combativos de manifestantes, foi paulatinamente simpatizando com os famigerados black blocs – afinal sofriam juntos da estratégia dos governos do PMDB, baseada na desinformação fornecida pela Rede Globo e na repressão pura e simples pela Polícia Militar.

Assembleia dos professores do município, com mais de 5 mil presentes, ao lado do Paço – tradicional praça do carnaval tomada pelos grevistas

Enfim, novamente a trinca herdada pelo nosso passado ressurge, soberana, na questão da educação, mas poderia ser mostrada nas políticas de remoção, na especulação imobiliária, na deformação e roubo puro e simples do Maracanã… Afinal estavam de fato articulados esses três encostos no leme de nossa cidade e estado. Fluminenses, e principalmente cariocas, não viam muitas opções políticas porque elas simplesmente não existem – governos sucessivos no Rio sucumbiram à política herdada do chaguismo. A Globo também sabe disso, e apostou todas as suas fichas no governo que, pelo menos, abrisse totalmente as portas ao investimento privado e que mudasse a sensação de insegurança social. As classes médias e as elites, política e econômica, os chamados formadores de opinião, quase todos se centraram nesse consenso, pois na ânsia de resolver a real crise social herdada das políticas econômicas da ditadura, da fusão das máquinas estaduais, do vácuo de poder e empobrecimento econômico, político e cultural do Rio, da falta de uma identidade regional, confundiam, consciente ou inconscientemente, precariedade do Estado com necessidade de privatização, e crise de segurança com necessidade de reprimir a pobreza.

Manifestantes acuados diante da 9º DP – policiais civis e militares quase chegam às vias de fato; a PM faz rondas de carro em volta da delegacia da Civil em clara demonstração de força http://oglobo.globo.com/rio/policia-civil-vai-instaurar-inquerito-para-apurar-se-houve-abuso-ou-excessos-da-pm-em-confronto-em-frente-9dp-9537895

Mas isso não quer dizer que essa articulação seja unitária, é claro que há tensões. A mais óbvia é a constrangedora relação de Cabral com o PT, mas nem isso impediu a Globo de se aliar tão intimamente ao PMDB no Rio. Na sua defesa da violência do estado, por outro lado, a Globo têm os seus limites; quando a coisa fica feia, quando a PM, fazendo o que sempre faz, aparece mais do que deveria, a Globo tira o time de campo e muda seu discurso para a defesa dos direitos humanos. E parte do público antipetista que ela fomenta, a parte mais radical, que não vê problemas na atuação das polícias nas favelas e periferias, e os próprios policiais, acusam a ambiguidade da emissora, vendo, ironicamente, um certo grau de petismo na Globo. A Polícia Militar do Rio, por sua vez, que também tem uma longa história de controle social desde sua fundação por D. João VI – e se orgulha muito disso –, tampouco está livre de tensões. Há diversas divisões na PM, institucionais, com diferenças salariais, e também uma política de bônus, coisas que sempre motivam tensões. Ademais, a maioria dos policiais tem origem na classe trabalhadora, e por mais que a ideologia da ordem, francamente militarista, em que estão imersos, a cegueira tem limites. Mesmo que reprimam, e alguns com requintes de sadismo, nos momentos de deflagração das tensões sociais eles estão sujeitos às pressões físicas e psicológicas – seja por exaustão do corpo, seja por algum grau de consciência, podem também explodir. A tensão de Cabral, visível em seus discursos, em que trocara sua arrogância por uma fala meio apatetada, muito provavelmente via todas essas tensões – não apenas seus votos simplesmente sumiam sob os gritos de ‘Ei, Cabral, vai tomar no cu!’, como seu próprio aparato militar e suas relações perigosas à margem da lei deviam estar esquentando por dentro, já com algumas rusgas explícitas entre a PM e a Polícia Civil.

Entusiasmo com o início das operações da OGX, empresa cujo fracasso iniciaria a queda de Eike.

E, a prova mais cabal de que as mudanças na História podem ocorrer em rupturas, de que esse projeto pode ser amplamente denunciado e derrotado – o será se essas tensões internas entre PMDB, Globo e PM se esgarçarem – é a queda fenomenal de Eike Batista. Ele, sempre ele, símbolo dos vínculos da aliança PT/PMDB com o grande capital e com o discurso gerencial privatista, explicitou as incompetências e riscos do próprio modo privado de agir e gerenciar. Pois não foram conjunções astrais que levaram à sua queda antes impensável, e sim a expansão de seu capital para diversos ramos sem ter a capacidade gerencial para todos, revelando diversos fracassos, em especial na prospecção de petróleo. Deixando para trás vários micos, revelando acordos escusos, como muitas das suas promessas de investimento no projeto da cidade-espetáculo, dentre elas a reforma do Hotel Glória e suas pretensões de abocanhar a Marina, espaço público tombado. A queda de Cabral, alinhada à queda de Eike, também é prova das possíveis mudanças; o Maracanã foi perdido, não aguentou até junho de 2013, mas o tombamento da escola Friedenreich e mudanças com relação ao antigo Museu do Índio, ambos no entorno do projeto do Maracanã, foram vitória do grito das ruas, assim como a redução a nível nacional das passagens e a ampliação de diversos debates como a política de transportes, de educação e a desmilitarização das polícias.

Plenária histórica do dia 25 de junho no IFCS. Apesar das falhas de condução e futura fragmentação, as cerca de três mil pessoas presentes mostram o potencial de uma alternativa de esquerda radical no Rio.

Existe muito poder por trás do ‘Fora Cabral, vá com Paes’, mostrou-se nitidamente mais forte pela situação política, social e econômica do Rio. Se a crise pode ruir com esse projeto? Não há ainda como saber, são acontecimentos ainda em trama. Cabral está para deixar o governo, com sua mais baixa aprovação, mas o projeto pode continuar sem ele, como provam as novas incursões militares nas favelas, com apoio do governo federal. Nosso papel, agora, é denunciar a amplitude desse projeto de assalto à cidade e ao estado, e a necessidade do Rio buscar seu próprio rumo – e não será com esses três encostos no seu leme que as coisas vão mudar. É claro que esse Rio é, também, dividido, não haverá um projeto alternativo de consenso, mas é preciso que surjam as alternativas – e o campo da esquerda radical deve também se ver em termos mais amplos, de construção, não apenas de sua prática nas ruas e assembleias, mas sim da criação dos nossos projetos sociais, pois se temos tantas vertentes, não temos nenhum projeto social, amplo de fato, e que seja revolucionário.

Há muito poder – em potencial, e já atuante nas ruas –, mudanças maiores são possíveis – mesmo que nada esteja certo, agora. Mas o ano de 2014 é, também, potencialmente explosivo. Que tenhamos força e senso crítico suficientes para atravessar esses mares tormentosos.

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